Domingo,
enquanto eu estava jogada no sofá assistindo aqueles programas bobos de
entretenimento, me chamou atenção uma matéria sobre mulheres que bordam.
Incrível como aquilo, que parecia tão bobo, me envolveu. Eu, que nem sei costurar,
me vi ali... Sentada no sofá, com a colher de sorvete na mão e pernas cruzadas,
boquiaberta de tão seduzida que estava por aquilo.
De
imediato não compreendi “por que” de me envolver, mas agora, minutos depois de
você sair desse cantinho que também já é seu, noto que você sabe me bordar. E eu precisei daquela matéria para perceber o
jeito como você me espalha cores, formas; me orna e enfeita. E tudo isso você
faz sem pretensão, apenas com o olhar. Você nem desconfia, mas o jeito como
você me percebe, me remenda.
Eu estive enganada a vida
inteira, porque sempre pensei que o talento estava na mão de quem segurava a
agulha, de quem dá forma aos desenhos. Mas vejo que talento também é saber ver.
Porque exige vontade e energia olhar para o pano branco sem vida e imaginar
detalhes ali. É talento sentir-se inspirado pelo nude, o vazio. E eu acho que agora,
depois de entender o jeito que você me olha, admiro demais os olhos que enxergam
além do “ver”. Os olhos que me veem como você.
Não vou negar que já fugi dos olhares muitas vezes, mas os outros
sempre foram olhares invasivos, que quase me obrigavam a me expor, diferente de
você... Que sabe olhar com cautela para o que eu sou. Quando já na cama e só a
luz do abajur está acesa, seus olhos me banham, pode parecer estranho, mas eles
parecem água: olha com transparência quem sou, como se não houvesse nada além de
mim, mergulhando em quem nunca me permitir mostrar ser. E esse encontro é tão
nosso que eu poderia definir o mundo com esse momento.
Para você, pode
não ser nada demais o que estou falando, mas é tão fácil admirar a beleza do
bordado quando ele já está pronto, entende? E aí tem outra coisa que me faz
querer você: tu vê o avesso do bordado também... E sabe enxergar beleza ali. Mas
não é só a capacidade de enxergar beleza naquela mistura de linhas, é o
interesse que você tem de querer ver o avesso também. Ninguém nunca se
interessa e você se interessa e gosta.
Juro que até
perdi o preconceito com os programas de domingo, porque depois de aquela
matéria me levar a entender tudo isso, percebi e decidi que se refazer pano
branco para ser remendada pela criatividade de um olhar é o que colore a vida,
o viver. Obrigada por ser meu mundo de cores.
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